não aprendi a conviver com a morte
é adoecedor esse estágio iminente da morte quando ela se declara mais presente do que poderíamos imaginar. e me parece que envelhecer, tanto bem nos traz o amadurecer, quanto mal nos traz das mais diversas façanhas e formatos da morte. não que a juventude ou primeira vida nos afaste dela. não mesmo. é que a passagem do tempo, as adversidades da saúde, as intempéries da vida parecem deixar essa relação cada vez mais próxima, o fim iminente.
mais uma vez, aqui estamos, nos encontrando. é pertubador, desolador, assustador. porque mesmo com a sua certeza sufocante, ela ainda deixa uma continuidade no luto... com a vida que continua, com aquilo que mergulhado de fim precisa seguir.
- como vai a vida aí fora?
tive vontade de perguntar a um amigo, que desejo secretamente que seja meu marido logo em breve (ele não sabe disso), quando passei dias seguidos na emergência cuidando de meu velho. era do hospital pra casa, pra casa do hospital. e justo quando o inverno brincou de ser verão. um final de semana inteiro de sol, céu azul, aquele calor que abraça e chama por um mergulho no mar. a vida sempre continua. impressionantemente. ainda que solenidade de despedida.
e como não adoecer? enlouquecer? descontrolar? é difícil lutar com a mania de querer ter tudo sob controle. não por querer, mas por uma cruel necessidade. um tipo de mecanismo de sobrevivência. pra dar conta, pra ver a tal luz que aparece no fim do túnel. e por mais que eu revisitasse minha fé, não parecia ser o suficiente.
fazem 11 dias, desde o seu internamento, as emoções seguem em montanha-russa, sem aquele alívio de chegar ao fim do percurso. por enquanto são apenas vagões seguindo em um trilho sem fim, cheio de loopings. faço minha agenda pensando nas roupas que preciso levar para o hospital, pensando nas roupas que preciso lavar ao chegar em casa. contando as horas que conseguirei dormir ou precisarei estar em alerta, para que o velhinho não apronte na madrugada.
na última noite de sábado para domingo, ele não pôde tomar uma medicação que o ajuda a encontrar o sono. fiquei alerta. sem dormir direito. até que uma hora apaguei. acordei, de repente, no rompante... a luz do banheiro acesa, do apartamento que estamos (importante relatar que ele já não está mais na UTI), estava ligada. imediatamnete pensei que era alguém fazendo alguma limpeza, jamais imaginei ser o velhinho. e sim, era o velhinho.
tinha levantado pois precisava ir ao banheiro, apesar de estar usando fralda - ele não aceita -, caminhou sozinho, sem poder, se virou. levantei desesperada, mas ele já tinha se organizado. só ajudei no que precisava. quando voltamos pra cama, para que ele pudesse se deitar, me abraçou. apesar da demência que transforma meu pai numa máquina de perguntas repetidas a cada 3 segundos e faz a memória recente ser quase que apagada, ele sente. eu sei que sente, e sabe que algo bom não está acontecendo com ele. aquele abraço tinha amor e medo. eu também senti.
o mais curioso em tudo, é que ainda que ele não saiba, a fé de meu pai é maior que a minha. e eu sigo na fé do pai, literalmente. Omolu, Oxalá, deus, o sagrado, o abraço e o aperto de mão nas noite mal dormidas.

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