De reciprocidade


"quando falta amor o que sobra é ego"


Um amigo me disse isso outro dia, e agora essa frase ecoa. Talvez as palavras não tenham sido exatamente essas ou nessa ordem, mas a essência se manteve. Me fez lembrar sobre o cuidar, que é tão importante nas relações de afeto. Sejam elas quais forem. Que também tem a ver com o se dar sem necessariamente estar atrelado ao receber em troca, ao condicional. É o natural. E o que seria essa condição, então? Uma segurança atrelada ao poder que existe sobre o sentir de outrem? Me questiono no agora sobre essas relações de afeto que mais parecem sugar. Que se comprometem apenas consigo mesmo. Que não se abrem, não se entregam por completo, mas se dão por satisfeitas quando da entrega plena do outro, a qualquer momento, a qualquer necessidade que seja a sua própria. O poder. Saber-se amado, amada, bem quisto por outro alguém e por mais que não haja uma reciprocidade integral ou num mesmo nível igualitário (e o que é igualitário no gostar enquanto - nós - seres diferentes?) utilizar dessa vantagem para si, ainda que de forma inconsciente. Nós mulheres, então, ensinadas tantas vezes ao longo da vida sobre o acolhimento, paciência e perdão incondicionais. Mas e dentro da gente, o que sobra? Quem fica? O que fica? Quem nos cuida? E o cuidar tá longe disso, muito, muito longe. Tá na compreensão de enxergar o outro sem querer exercer poder sobre, sem a necessidade de controle. Ainda mais quando existem sentimentos díspares. É entender o tempo que não lhe pertence, é ter cuidado com aquilo que se regenera, é entender que o recíproco está no olhar para além do próprio umbigo e se propor, se dispor... usar da mais pura sinceridade do sentimento, sem o medo de parecer ingênuo/a, besta, ao (se) expor. O amor pra mim existe aí, nas amizades ou nas relações a dois (ou poli, vai saber), é falar do que se sente e sentir, daquilo que tá dentro sem medo das interpretações; ao tempo em que o olhar que recebe é cúmplice, um olhar desarmado e mergulhado em seu sentido mais amplo: de dar vida, de observar, do enxergar, de reconhecer, de descobrir, do se emocionar.  Um conceito mais utópico? Quem sabe... mas a vida vai passando e tem sentimentos, relações que nos cansam de viver em reprise. O ser humano é tão bonito, e tem tantas potências as relações por inteiro, que meu único desejo atual sugere a vivência da reciprocidade em sua inteireza, sinceridade, espontaneidade, ainda que com possibilidades ao erro-aprendizado. Quero cuidar e ser cuidada também. Que seja e venha em permissão, e não mais condição.





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