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Mostrando postagens de Dezembro, 2013

A breve história do catador de latinhas que cantava o hino nacional.

no canto
um catador cantante
jogado
ao encanto
de quanto canto
há perdido
no entre-tanto,
de um catar lixo,
em um cantar
que encanta
por haver beleza,
mesmo num cantar pró-lixo.

O homem poeta.

Um dia me casaria com ele.
Por mais que ele ainda não saiba disso,
e às vezes, nem eu também.

Ele fala de dor,
com tanta poesia,
que nem medo de doer tenho.

Lá do interior,
com voz mansa,
conta histórias atemporais.

Tem um abraço que
faz levitar o corpo
levantar o pêlo.

O tempo pára
em suas palavras,
ditas e não ditas.

Um dia me casaria com ele.
Só pra ouvir suas histórias.
Pra saber dos seus contos.
Pra tocar em sua dor.
Pra ter seu abraço levita-dor.
Pra transformar-nos somente em amor.



Do erros coração - Parte 3 - Você

você se dando de corpo e alma em cena
você sendo ovacionado pela platéia
você tentando falar português
você arrumando o bigode
você me servindo cerveja
você dançando salsa
você me fazendo ultrapassar paredes
você me levando até a porta
você maldizendo os malditos niños do alvorecer
você bendizendo a noite que passou
você adoçando a vida
você me pedindo para dormir ao seu lado
você me avisando do seu ronco
você se declarando em clichês
você programando reencontro
você dedicando canção
você sentindo falta
você chegando de novo
você e a constatação de que tudo ainda estava lá
você e suas gírias
você e sua intensidade
você e seus presentes
você e seus pedidos
você rindo das minhas piadas
você falando 'te extraño'
você e a bagunça arrumada
você me pedindo tradução
você pedindo beijo
você e o abraço infinito
você e o abraço infinito no meio da rua
você e as mãos dadas
você ao lado
você feliz
você morando no meu pecoço
você realizando sonhos
você bebendo água da torneira
você me pedindo pra ficar tranquila
você gritando…

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Tem uma coisa que dói mais que tudo, que se chama vazio. Há um tempo alimento um vazio interno. Hoje ao olhar meus braços pude enxergar todo o vazio que tenho acumulado em mim ao longo dos últimos dias. Troco o vazio pela saciedade que a comida me dá. É uma forma de preencher temporariamente esse buraco que tenho do lado de dentro. De repente é época, fase. Natural. Uma amiga minha diz que eu preciso é mudar os ares organizando minha vida, a começar pelo meu próprio quarto, me libertar de algumas velharias que ainda moram comigo. Só assim as energias estarão renovadas. A verdade é que nos últimos tempos falta vontade. Como se o querer fosse simples rotina. Pelas decepções do destino, por aquilo que parece se manifestar seguro, mas faz tão parte da instabilidade que é a vida quanto o próprio amanhã. Sinto a necessidade de andar na vida em par. Não falo necessariamente de relações amorosas. Mas funciono muito melhor em parcerias. Não que não saiba lidar com minha própria solidão, todavi…

Dos erros coração - parte 2 - O homem-oceano (de quando mesmos os bons também ferem)

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ele tinha um coração-oceano, e nem precisou falar nada. apenas o pude sentir quando deitou em meu peito... inclinou o rosto e me olhou, um olhar de mar que não mais esquecerei. como de quem acha um colo-ilha para se abrigar... depois vieram as palavras-correnteza, e eu preferia ter parado apenas em seu olhar. o tempo passava alimentado por declamarações  e nos intervalos o meu medo de aprender a nadar, de ficar apenas com os pés no raso. por fim aceitei seu convite anti salva-vidas e mergulhei, re-descobri que o mar é mesmo feito de surpresas incríveis, cores e densidades particulares. e foi por perder temporariamente o medo do mar,  e achar que já sabia nadar, que eu me afoguei. acreditei num oceano de emoções, embalado por suas marés baixas e altas, me deixei levar por sua profundidade desconhecida, prendi a respiração e perdi os sentidos, quase morri submersa, até conseguir voltar novamente à superfície. e voltei, nem tão sã, mas salva. com a imagem de seus olhos de peixe e coração-oceano  ainda cravada n…

Dos erros coração - parte 1

quando ele falou sobre cuidar, eu deveria ter escutado: c u i d a d o.



O tempo é breve.

Existe um livro, uma peça, uma música, um filme, uma foto, uma lembrança, um cheiro, um riso, um choro, um sentimento... existe algo. Um tempo específico que cabe em cada uma dessas palavras-momentos anteriores, e na maior parte dos casos, esse tempo é breve, é finito. 
Lembro que devia ter uns onze para doze anos... brincava animadamente de pular corda com os amigos do prédio. Era uma felicidade imensa o que eu sentia. Um pouco mais tarde, já em casa, não sei porque cargas d'água me veio a mente a música do Lulu Santos: "nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia / tudo passa, tudo sempre, passará". E logo naquele instante, que eu desejava tanto sentir a mesma felicidade repetida em amanhã, eu acabara de ter certeza que o tempo se transformava, e por mais que repetido, nada seria da mesma forma e nem do mesmo jeito que foi um dia. Tinha descoberto: o tempo e sua efemeridade.
Hoje catorze [*quinze] anos depois, e tal como estação, o tempo me acompanha com sua…

sobre poesia...

não entendo a poesia somente entre regras, rimas e métricas.
a poesia é sentimento até do que nem a palavra expressa,
existe eco no oco.


o amor é mergulho.

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o amor é mergulho.
mas às vezes, às vezes, dá vontade de ficar no raso,
só para ter a segurança de encostar os pés no chão e
voltar logo à superfície.

o amor é mergulho.
e ainda não inventaram outra forma de aprender a nadar,
e mergulhar,
sem correr o risco de se afogar.

o amor é mergulho.
e no raso,
não há como ser profundo.

o amor é mergulho.
e sem garantia de salva-vidas.

o amor é mergulho,
mas às vezes, só às vezes,
dá vontade de nunca mais mergulhar.