doença


esse desatino que não passa
parece que fere, machuca e a cicatriz permanece aberta
me falaram de lembrança, doença de lembrança que não cessa
e sabe que acho mais engraçado - ou seria triste ? -
que qualquer possibilidade de um agora,
  em qualquer tipo de afeto que fosse 
nunca existiria de verdade
porque não nos cabe mais
daí creio que me prendo a um futuro viciado em memórias
mas às vezes acho que é tudo condicional mesmo
 sentimento confundido, 
de sempre achar que existe algo ainda mal resolvido
mesmo que com a consciência total de um fim, 
de escolhas conscientes
acho que tudo tardou tanto que ficou essa sensação de coisa
sem nó, sem ponta, nem cabeça
me embaralhei numa eu que nunca fui
vivemos projeções lindas
inseguranças alimentadas num mar de ilusões
você fez crescer covardia, com medo de ouvir sua própria voz
ao fim, por fim, você sempre foi como todos os outros
e não que eu seja plena, a melhor, a mais bem resolvida
mas aprendi sobre sinceridade
sabe, sinceridade a dois?
porque às vezes o ato falha
porque às vezes parece que é só falar, qualquer coisa
 mas na verdade a gente não diz sobre aquilo que é real
não diz com medo de se ouvir, de não querer ouvir o outro
de impactar, de desgostar momentaneamente
porque as relações tão no ultrapassar das fases
nada é esplêndido o tempo todo
você foi cruel com isso
alimentou lugares como todos os outros sempre alimentaram
e eu de cá entre lágrimas infinitas,
uma dor tão longa, que nunca vivi antes
presa a uma despedida que nunca existiu, 
sem entender que não fui verdadeiramente uma escolha pra você
te guardei ilusão, de um futuro, de um reconhecimento perdido
que boba, que ingênua,
e ter sido assim, não é ruim, não pra mim.
após meses de processos internos
depois de uma vida inteira em meses de recuperação
você volta, pra se redimir, redimir de algo que você nunca reconheceu
da sua própria covardia, sem assumi-la
medo de si mesmo, das consequências,
de uma forma egoísta
pra ficar bem e estar bem consigo mesmo
e não pelo afeto, por mim, por nós
você foi cruel, você É cruel
e tão pouco tempo depois
tão fácil, tão certeiro floresceu em outro jardim
sem pestanejar, sem dúvidas, sem avisar, sem cuidado algum
aquilo que pensei que um dia fosse teu desejo 
ao alimentar tanta projeção enquanto fomos nós
parece que nada existiu
parece que fui brincadeira
parece que fui experimentação
mas tá ligado, com sentimento não se brinca
e eu não tenho mais nenhuma obrigação de te aceitar
de aceitar ser qualquer coisa sua que envolva afeto
adeus, era o que eu queria te dizer agora
e ainda sim seria algum tipo de sentimento por você
e eu prefiro aprender a não sentir mais nada
bem como tu fez comigo
nesse mesmo lugar que sou pra você: passado
e assim como virada de ano,
que você fique nesse lugar do tempo
que foi,
que não é
e não será mais.
me curo
ao me despertencer
de qualquer coisa
que me faça mal,
dessa doença chamada você
eu quero viver o bem,
e nesse agora, meu caminho é teu oposto, é outro.




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